No meio do caminho tinha rendas de monopólio

desafios ao desenvolvimento econômico brasileiro postos pelo “sorriso desfigurado” das cadeias globais de valor

Autores

DOI:

https://doi.org/10.69585/2595-6892.2026.1247

Palavras-chave:

cadeias globais de valor, análise marxista, inovação tecnológica, rendas de monopólio, desenvolvimento de economias periféricas

Resumo

Este artigo tem como objetivo apresentar uma análise crítica, com
base na abordagem marxista, sobre a maior capacidade de agregação
de valor dos intangíveis (serviços pré e pós-produção), associada ao
progresso técnico, expressa na curva sorriso das Cadeias Globais de
Valor (CGV). Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa bibliográfica
de natureza exploratória, descritiva e fundamentalmente teórica,
embora sejam indicadas algumas implicações para as políticas públicas.
A principal contribuição desta análise consiste em investigar a
essência do fenômeno, identificando os reais obstáculos ao desenvolvimento
das economias periféricas, como a brasileira. Argumenta-se
que as inovações tecnológicas, longe de elevarem a produtividade e
o valor agregado desses serviços, têm consolidado monopólios que
capturam rendas, em vez de segmentos competitivos geradores de lucros.
As elevadas barreiras à entrada, somadas à menor lucratividade
de curto prazo desses investimentos, em comparação com o setor
agropecuário (que apresenta eficiência alocativa ricardiana) e com o
setor financeiro (que se beneficia da elevada taxa de juros básica, propiciando
maior rendimento associado à geração de capital fictício) na
economia brasileira, sugerem que o investimento público constitui
o único caminho viável para o crescimento e desenvolvimento. Esse
caminho, porém, enfrenta desafios significativos, como a hegemonia
neoliberal (que defende a menor intervenção do Estado na economia),

a polarização política e a falta de apoio popular a um projeto de desenvolvimento.
Tal apoio poderia ser conquistado por meio de um plano
de desenvolvimento nacional de Estado, orientado à adaptação do país
às mudanças climáticas (que afetam a todos) e à geração de empregos
decentes, cujos benefícios à população superariam aqueles associados à
mobilidade ascendente nas CGV.

 

Biografia do Autor

Elohá Cabreira Brito, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA

Pesquisadora bolsista no Subprograma de Pesquisa para o Desenvolvimento Nacional do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (PNPD/IPEA). Doutora em economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

André Rego Viana, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)

Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos sobre Estados e Instituições (DIEST) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP).

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25.04.2026